Disponível

Resistir ao ruído, à palavra, ao rumor pelo silêncio da foto – resistir ao movimento, ao fluxo e à aceleração pela imobilidade da foto – resistir ao ímpeto da comunicação e da informação pelo segredo da foto – resistir ao imperativo moral do sentido pelo silêncio da significação. Resistir, acima de tudo, ao desdobramento automático das imagens, à sua sucessão perpétua, em que o que se perde é não somente o traço, o detalhe pungente do objeto [...], mas também o momento da foto, imediatamente completada, irreversível e , por isso, sempre nostálgica.

Jean Baudrillard, A troca impossível

Ao fotografar diversas estradas nos últimos seis anos, um elemento que começou a chamar a atenção, não só pela sua presença silenciosa, mas pela sua  recorrência cada vez mais intensa, foram os outdoors sem uso. Geralmente próximos às entradas de cidades, eles também são presentes em pontos isolados de estradas, em espaços esgotados de se expor nessas placas gigantes. Muitas vezes declarados “disponíveis”, eles aparecem em diferentes formatos, tamanhos e estados. Alguns só com sua estrutura básica, sem chapas; outros faltando peças; alguns pintados e brilhando, prontos para a próxima imagem. Mas ao passar por eles, o que chama a atenção é o vazio de um retângulo grande no meio das paisagens naturais e o silêncio daquele que sempre tinha algo a dizer.

 

Ao compor algumas das primeiras fotografias desses outdoors, a força da quietude das imagens começou a ser quase uma teimosia, uma reação às imagens desgastadas e aflitivas que circundam o cotidiano, principalmente fora das estradas. Olhar para onde deveria ter uma imagem e perceber chapas de alumínio, tecidos e banners quase sem informação, demonstrando um cansaço do se expor, foi um alívio para os olhos. Assim, a busca por essas personagens das estradas passou a ser uma constante nos últimos anos, ao sair em busca de imagens de estradas e regiões fronteiriças.

Baudrillard, no texto acima, destaca questões essenciais da fotografia como produto simbólico. Traz o silêncio, a imobilidade, o segredo, a significação e a nostalgia da fotografia e do fotografar. Todos elementos sensíveis também ao tema aqui proposto. As placas de outdoor vazias resistem à palavra, ao movimento, a informação, ao sentido e ao automatismo. Elas estão lá quietas, produtos de um tempo de mídias analógicas, fixas, demarcadas espacialmente, sem fluxos ou alterações contínuas. Elas pertencem a um compasso desacelerado, à uma contemplação do nada, elas são o potencial do que pode vir a ser, pois estão quietas no seu vazio, aguardando serem imagem.

Essas características do outdoor demarcaram a forma de editar e apresentar as imagens. Assim como Baudrillard descreve as características e a existência de uma fotografia mais discreta e contemplativa, buscou-se uma estética que retomasse algumas questões mais clássicas e formais, desde formatos, tons, edições e propostas de acabamento. A ideia aqui apresentada, então, é de um trabalho em andamento - e as imagens a seguir são parte de um conjunto que ainda precisa da produção de imagens novas e de uma edição refinada do que foi elaborado até o momento.

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 © Anuschka Lemos.
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